29 maio 2018

Resenha: O Fundo é Apenas o Começo - Neal Shusterman & Brendan Shusterman

em 29 maio 2018

11 comentários

Uma poderosa jornada da mente humana, um mergulho profundo nas águas da doença mental.
CADEN BOSCH está a bordo de um navio que ruma ao ponto mais remoto da Terra: Challenger Deep, uma depressão marinha situada a sudoeste da Fossa das Marianas.
CADEN BOSCH é um aluno brilhante do ensino médio, cujos amigos estão começando a notar seu comportamento estranho.
CADEN BOSCH é designado o artista de plantão do navio, para documentar a viagem com desenhos.
CADEN BOSCH finge entrar para a equipe de corrida da escola, mas na verdade passa os dias caminhando quilômetros, absorto em pensamentos.
CADEN BOSCH está dividido entre sua lealdade ao capitão e a tentação de se amotinar.
CADEN BOSCH está dilacerado.
Cativante e poderoso, O Fundo é Apenas o Começo é um romance que permanece muito além da última página, um pungente tour de force de um dos mais admirados autores contemporâneos da ficção jovem adulta.

*Livro recebido em parceria com a editora* 

"Os motores dos automóveis não são tão complicados assim. Só dão essa impressão porque a gente não sabe muito sobre eles — com aquela barafunda de tubos, fios e válvulas —, mas principalmente porque o motor de combustão interno não mudou tanto assim desde que foi inventado.
Os problemas de papai com carros não se restringem a espelhos retrovisores caídos no chão. Ele não sabe praticamente nada sobre eles. Sua especialidade é a matemática, os números; carros não são a sua praia. Dá uma calculadora para papai e ele muda o mundo, mas, sempre que o carro quebra e o mecânico pergunta qual é o problema, a resposta costuma ser: “Quebrou.”
A indústria automotiva adora gente como meu pai, porque permite que eles ganhem uma fortuna com mil consertos de que os carros podem ou não precisar. O que deixa papai louco da vida, mas ele racionaliza a situação, dizendo: “Vivemos numa economia baseada em serviços. Todos nós temos que alimentá-la de algum modo.”
Não que os fabricantes de automóveis ajudem muito. Quer dizer, com a tecnologia moderna, seria de esperar que os carros pudessem se diagnosticar, mas não, os painéis só têm aquela luzinha idiota do “check-up do motor” que se acende quando há alguma coisa errada — o que prova que os automóveis são mais orgânicos do que pensamos. Obviamente, são inspirados no cérebro humano.
A luzinha do “check-up do cérebro” se acende de muitas maneiras, mas essa é a parte problemática: o motorista não pode vê-la. É como se ela estivesse posicionada no porta-copos do banco traseiro, debaixo de uma lata vazia de refrigerante que já está lá há um mês. Ninguém vê a luzinha, a não ser os passageiros — e só se estiverem procurando, ou então quando ela fica tão quente e brilhante que derrete a lata e incendeia o carro inteiro."

Como resenhar esse livro pra vocês? Eu acredito fielmente que muitos sentimentos após as leituras não podem ser traduzidas em palavras, pois quando o livro é intenso, é verdadeiro e toca na sua alma de alguma maneira, você não consegue explicar esse turbilhão de emoções, pois é algo único e pessoal. 

O Fundo é Apenas o Começo foi uma leitura assim. Desde o primeiro momento eu soube que seria uma leitura na mente de um jovem com uma doença mental, mas não sabia a profundidade que essa história teria, o impacto que teria na minha vida, e mesmo tendo demorado quase um mês nessa leitura (pois pra mim não foi nada fácil e também queria degustá-lo aos poucos) quando li a última página não sabia o que dizer pra vocês sobre ele.

"O que vejo quando fecho os olhos? Às vezes, uma escuridão que ultrapassa tudo que sou capaz de descrever. Ela pode ser gloriosa ou aterrorizante, e raramente sei qual das duas vou encontrar. Quando é gloriosa, quero viver nesse lugar, onde as estrelas apenas marcam uma vasta concha inatingível, como acreditavam os homens no passado. (...)
E você é as duas coisas: a presença e a ausência. E esse conhecimento é tão magnífico que não cabe dentro de você e o compele a compartilhá-lo — mas você não tem palavras para descrevê-lo, e sem as palavras, sem um modo de compartilhar a sensação, ela te destrói, porque sua mente não tem espaço para conter o que você tentou pôr dentro dela...
... mas nem sempre é assim.
Às vezes, a escuridão além não tem nada de glorioso, é uma verdadeira e absoluta ausência de luz. Um breu pegajoso que se cola na sua alma e a puxa para baixo. Você se afoga nele sem se afogar. Ele te transforma em chumbo, e faz você afundar mais depressa na sua membrana viscosa. Priva você de toda a sua esperança, e até das recordações da esperança. Faz com que pense que sempre se sentiu assim, e que não há nenhuma direção a seguir a não ser para baixo, onde ela digere a sua vontade lenta e gulosamente, destilando-a no petróleo de ébano dos pesadelos.
E você conhece a escuridão além do desespero tão intimamente quanto as alturas vertiginosas. Porque neste e em todos os outros universos existe um equilíbrio. Você não pode ter um sem enfrentar o outro. E, às vezes, pensa que é capaz de suportar isso porque o êxtase vale o desespero, mas outras vezes sabe que não, como pôde pensar o contrário? E a dança prossegue: força e fraqueza, confiança e desolação.
O que vejo quando fecho os olhos? Vejo além da escuridão, e tanto acima quanto abaixo há uma grandiosidade incomensurável."
Vamos por partes, vou contar um pouquinho da história pra vocês: 

Caden Bosh é um garoto "normal" de 15 anos, alias, ele era, até visitar todos os dias um navio com uma tripulação muito estranha, um capitão autoritário e um papagaio nada confiável. A missão desse navio é encontrar a Challenger Deep, um lugar muito remoto e cheio de lendas sobre grandes tesouros submersos naquela depressão, mas essa missão não será fácil, e Caden recebe um papel muito importante para cumprir ali. 

Em paralelo as suas visitas no navio, sua rotina em casa começa ficar um pouco confusa, ele não consegue mais colocar seus pensamentos em desenhos como sempre fazia, não consegue mais se alimentar direito e passa os dias andando pela vizinhança. Ele sabe que algo está errado, tem sempre uma sensação de que alguém está querendo matá-lo na escola e que estão sempre falando dele por aí, mas será porque ninguém quer ajudá-lo ou acredita nele? 
"As vozes não podem ser reais, mas são muito boas em fazer com que você se esqueça disso."


Vocês sabiam que nos Estados Unidos uma a cada três famílias é afetada pela doença mental? Que o Brasil 23 milhões de pessoas sofrem com esse problema? É engraçado até, pensar em quanto esses números são grandes e o quanto ainda julgamos essas pessoas como casos extremos, e quando uma pessoa acaba sendo diagnosticada é tratada pelos conhecidos como 'louco'. É triste essa realidade, e foi pensando nisso que o autor criou este livro, que não é bem uma ficção por ter sido baseado completamente na vida de seu filho, que foi diagnosticado com uma doença mental e passou por tudo que Caden nos mostra durante a história. 

Inclusive, vale a pena citar que os desenhos que ilustram a capa e o interior do livro foram feitos por Brendan Shusterman enquanto estava passando pelos episódios da doença mental, assim como Caden. E isso torna essa edição  muito mais especial, muito  mais emocionante.
"Sempre procuramos os sinais que perdemos quando algo dá errado. Viramos verdadeiros detetives tentando resolver um crime, porque talvez, se descobrirmos as pistas, tenhamos algum controle sobre a situação. Claro, não podemos mudá-la, mas, se conseguirmos reunir um bom número de pistas, isso confirmará que poderíamos ter impedido o pesadelo que se abateu sobre nós, se tivéssemos sido mais astutos. Imagino que seja melhor acreditar na nossa burrice do que crer que nem todas as pistas do mundo teriam sido capazes de mudar coisa alguma."
O Fundo é Apenas o Começo não é uma leitura fácil, daquelas que você pega e em horas já terminou. A confusão da mente de Caden transforma essa história em uma narrativa em que precisamos ficar atento aos detalhes para perceber o que é 'real' e o que é fruto da paranoia do personagem. Quando as duas realidades se chocam tudo fica ainda mais confuso, e você só consegue pensar o quanto deve ser difícil para aquela pessoa conseguir diferenciar o mundo real da alucinação, o quanto as paranoias são reais pra ele, e o quanto essas pessoas devem se sentir sozinhas e perdidas. Porém o fato de o livro ter capítulos curtinhos (são 161) ajuda muito nessa leitura, pois assim podemos ir lendo com calma, e não nos perdendo no local onde paramos. 

Além de ter sido uma jornada incrível acompanhar os pensamentos de um jovem com transtorno mental, foi fácil me identificar com Caden, seus pensamentos sobre depressão, ansiedade me pegaram de jeito, me jogaram naquela história e me fizeram sentir que não estava sozinha, e o autor soube trabalhar isso de uma maneira incrível, real e muito solidária, de modo que se você passa por isso consegue se identificar, e se não passa consegue se solidarizar mais por quem vive com isso diariamente.
"— É preciso romper os padrões conhecidos para ver o que realmente está lá."

“As coisas que sinto não podem ser traduzidas em palavras, ou, se podem, são palavras numa língua que ninguém pode compreender. Minhas emoções tem o dom bíblico de falar em idiomas desconhecidos. A alegria vira raiva e a raiva vira medo e o medo vira uma ironia divertida, como quem salta de um avião de braços abertos, sem ter a menor dúvida de que pode voar, para então descobrir que não pode.”


“Não entendi a resposta no momento, mas essa sensação – de saber que há algo errado sem poder detectar o que seja – foi uma coisa que passei a conhecer intimamente. A diferença é que nunca fui capaz de encontrar nada tão fácil e óbvio como um espelho retrovisor caído aos meus pés.”

"Desconfio que a possibilidade de voltar nunca tenha existido. Eu já estava predestinado para essa viagem muito antes de pisar no convés. Predestinado desde que nasci."
Outro ponto que eu adorei ter visto nesse livro foi como a família sofre juntamente com a pessoa que está passando por aquilo. Aqui os pais de Caden estão a todo momento possível presente ao lado do filho, dando o apoio que ele precisa para melhorar, para poder voltar pra casa, e em certo ponto da história percebemos como deve ser difícil para essa família: ter que voltar pra casa e lidar com a pressão de ver o filho doente e não poder curá-lo rapidamente, não poder fazer nada além de visitas quando você está vendo que ele está sofrendo, está completamente perdido em paranoias e o torpor dos medicamentos. Se antes de ler esse livro eu já achava as famílias que passam por isso fortes, hoje com certeza admiro essas pessoas muito mais, principalmente as que não tem as boas condições que a família da história teve de internar e tratar o seu filho na melhor clínica.
"E, de repente, me dou conta de uma coisa terrível em relação aos meus pais. Eles não são envenenadores. Eles não são o inimigo...
... mas são impotentes.
Querem fazer alguma coisa — qualquer coisa — para me ajudar. Qualquer coisa para mudar a minha situação. Mas são tão impotentes quanto eu. Estão juntos num barco salva-vidas, mas totalmente sozinhos. A quilômetros da costa, a quilômetros de mim. O barco está fazendo água, e eles precisam esvaziá-lo com baldes em movimentos coordenados para não afundarem. Deve ser exaustivo.
Essa terrível verdade sobre a impotência dos dois é quase demais para suportar. Gostaria de trazê-los para o navio, mas, mesmo que pudessem nos alcançar, o capitão jamais permitiria a presença deles.
No momento, ser eu está sendo uma merda — mas, até agora, nunca tinha me ocorrido que ser eles também está."
Acho que já falei até mais que devia, então vamos finalizar essa resenha. 

Se eu recomendo o livro? Muito. Essa é uma leitura que precisa ser sentida, para que mais pessoas possam entender como é a mente de uma pessoa que tem uma doença mental, como é difícil, confuso, doloroso e ao mesmo tempo incrível tudo que o nosso cérebro pode criar. Com um livro tocante o autor consegue mostrar todas as facetas dessa condição, e mostrar que ela é algo extremamente comum e que merece mais solidariedade das pessoas ao redor, pois só com a ajuda delas que é possível buscar uma melhora para o doente. 


11 comentários:

  1. Você me convenceu totalmente a ler este livro, já vinha querendo ler ele porque via bastante por aí, mas depois do que você escreveu já não tenho mais duvidas. Adoro livros com esta temática até porque tenho questões assim também e ver livros assim me fascina.

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  2. Hello!
    Ouvi falar mto bem do livro e que ele ganhou prêmios!
    Fiquei muito curiosa com a história, queria ver como o autor conseguiu transportar para as páginas esses transtornos.
    Amei a capa e por dentro vejo que o livro é bem lindo tb.
    Prefiro livro com pequenos capitulos, sempre ajudam a ler mais rapido e nao fica cansativo.
    Vou com certeza ler.
    Beijos.

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  3. Olá, esse me parece ser um livro bem marcante, que meche com o leitor, acho que li poucas obras que abordassem temáticas como doenças mentais, vou ler esse assim que possível. Ótima resenha.

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  4. Quando eu li a sinopse eu já esperava uma leitura delicada e incrível, e após ler sua resenha tenho certeza de que vou amar o livro. Gosto bastante de tramas mais sensíveis assim, e estou louca para iniciar a leitura. Já coloquei na meta do mês.

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  5. Olá!
    Amei esse livro. Um mergulho na mente humana e no desconhecido ao mesmo tempo. A escrita do autor é incrível e a abordagem é muito delicado.
    Uma leitura que me agradou muito e me deixou com vontade de conhecer outros livros do autor.
    Beijos!

    Camila de Moraes

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  6. Oi Sabrina,
    Neal Shusterman é o mesmo autor de Fragmentados e Desintegrados. Quando li Fragmentados disse pra mim mesmo que leria qualquer coisa que esse autor escrevesse. Já tenho O Ceifador e O Fundo é Apenas o Começo que espero ler em breve. Não sabia que o livro foi baseado na vida do filho dele.
    Com amor, André
    Garotos Perdidos

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  7. Eu tinha ouvido falar bem do livro, mas não sabia que tinha essas ilustrações e esse aprofundamento na mente humana. Fiquei interessadíssima e já quero ter e ler.
    Beijos

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  8. Oi, tudo bom?
    Eu estou lendo críticas bem positivas sobre esse livro e estou muito curiosa para ler, ainda mais por ser baseado em algo da vida familiar do autor. Dica anotada e espero poder ler esse livro em breve.

    Beijos!
    http://www.manuscritoliterario.com.br

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  9. Olá! Tudo bom?

    Já tinha visto esse livro, mas nunca parei para ver do que se tratava. Confesso que após ler sua resenha eu estou ultra curiosa para conhecê-lo. Amo esses livros que nos despertam vários sentimentos. Acredito que não tinha visto um livro anteriormente sobre esse tema que fosse escrito desta forma. Anotei aqui a dica, e espero de verdade gostar e apreciar esse livro tanto quanto você ♥

    beijos

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  10. Oi!

    Eu tenho visto muitos comentários sobre o autor, mas nem sabia que tinha sido lançado esse livro no brasil. To meio atrasada, hehe. Enfim, adoro quando o livro é bem intenso e faz a gente perder a fala (ainda mais quando a gente tem blog hehe). Eu fiquei bem curiosa, parece ser mesmo uma leitura cheia de sentimentos. Anotei a dica por aqui! :)

    beijosss

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  11. Olá! Vi esse livro na Amazon quando foi lançado, mas não procurei saber sobre, até me deparar com a sua resenha tinha uma ideia completamente diferente do que o livro trataria, mas ainda assim gostei e muito. Anotei a dica! Espero gostar tanto assim como você. Beijos!

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