02 maio 2018

Resenha: Kindred: Laços de Sangue - Octavia E. Butler

em 02 maio 2018

17 comentários

Em seu vigésimo sexto aniversário, Dana e seu marido estão de mudança para um novo apartamento. Em meio a pilhas de livros e caixas abertas, ela começa a se sentir tonta e cai de joelhos, nauseada. Então, o mundo se despedaça.
Dana repentinamente se encontra à beira de uma floresta, próxima a um rio. Uma criança está se afogando e ela corre para salvá-la. Mas, assim que arrasta o menino para fora da água, vê-se diante do cano de uma antiga espingarda. Em um piscar de olhos, ela está de volta a seu novo apartamento, completamente encharcada. É a experiência mais aterrorizante de sua vida... até acontecer de novo. E de novo.
Quanto mais tempo passa no século XIX, numa Maryland pré-Guerra Civil – um lugar perigoso para uma mulher negra –, mais consciente Dana fica de que sua vida pode acabar antes mesmo de ter começado.

“Impossível terminar de ler Kindred sem se sentir mudado. É uma obra de arte dilaceradora, com muito a dizer sobre o amor, o ódio, a escravidão e os dilemas raciais, ontem e hoje” – Los Angeles Herald-Examiner

*Livro de acervo pessoal da blogueira* 

Bom, depois de dias que terminei essa leitura acho que finalmente consegui colocar meus pensamentos em ordem e vir aqui falar pra vocês o que achei sobre esse livro. A resenha está enorme, mas acho que falei tudo que precisava - e mais um pouco-.

Primeiramente: Kindred é classificado como uma ficção científica, e talvez isso assuste ou decepcione alguns leitores, mas a realidade é que ele não é uma ficção científica que busca explicar como ela consegue viajar no tempo ou outros detalhes do gênero. Este é um livro sombrio e realista sobre a escravidão, sobre como aquele período histórico era diferente para os negros e brancos, e como nunca nós brancos vamos conseguir compreender a dor que causamos aos negros, e principalmente como nunca devemos permitir que algo semelhante volte a acontecer.

O livro trás a história de Dana, uma jovem negras de 26 anos que um belo dia acaba sentindo uma tontura e quando abre os olhos está ao lado de um rio e tem um garotinho se afogando. Ela o salva e tem uma arma apontada para sua cara, e quando está completamente em pânico reaparece em seu apartamento toda molhada e suja de lama, provando que aquilo não foi um sonho.

Essas viagens começam a acontecer com mais frequência, e todas aparentemente estão relacionadas à Rufus, uma criança filha de um senhor de escravos em 1819. Se ser uma mulher negra em 1976 na Califórnia já não era muito fácil, imaginem ser uma negra em uma época que a escravidão estava em alta nos Estados Unidos. Dana acaba enfrentando vários problemas e vivenciando os horrores da época na pele, sempre pulando entre os séculos, e sempre ficando psicologicamente mais debilitada a cada vez que é puxada para o passado.

"Eu era a pior guardiã possível que ele podia ter, uma negra para cuidar dele em uma sociedade que via os negros como sub-humanos, uma mulher para cuidar dele em uma sociedade que via as mulheres como eternas incapazes. Eu teria que fazer tudo o que pudesse para cuidar de mim mesma. Mas o ajudaria da melhor maneira que conseguisse."

Acho que a primeira coisa que devo citar nessa resenha é como a autora foi uma mulher corajosa. Ela publicou seu livro em uma época que os americanos negros não liam muito, principalmente ficção científica, ela era uma mulher em um país machista, negra em um país racista, e seu livro evidencia todos esses pontos, cutuca e mostra o passado em que os brancos humilharam e foram responsáveis pela morte de vários negros. Imaginem a coragem que se tem que ter para publicar um livro com tantas críticas, para um público que era o vilão da história.

Sua publicação com certeza abriu portas para que mais negros se interessassem pela literatura, para que mais negros se tornassem autores e criassem protagonistas negros, quebrando o estereótipo em que eles se encontravam nos livros, como amigos dos protagonistas, os problemas da história ou mesmo como personagens aleatórios só para falar que o autor não era racista e colocou um negro ali.

A maioria dos livros de ficção científica usam o futuro para tecer comparações com a nossa sociedade atual e pautar críticas a esta, mas em Kindred a autora usa o passado, usa a dura realidade da escravidão para nos mostrar os diferentes tipos de abusos que aquelas pessoas sofriam, e nos mostrar que apesar de termos evoluído, ainda há muito o que melhorar, pois a escravidão, o racismo ainda está impregnado na nossa sociedade, disfarçado de piadas, liberdade de expressão e ideais politico-religiosos.

"Sei que algumas dessas crianças verão a liberdade.. depois de passarem os melhores anos da vida escravizadas. mas quando a liberdade acontecer para elas, será tarde demais. Talvez já seja tarde demais."


A história também aponta como é diferente ler sobre e passar por isso. E apesar de no livro tal questionamento venha para apontar a escravidão, é claramente uma analogia ao racismo, sobre como nós brancos não podemos tomar o lugar de fala dos negros quando se trata da discussão sobre o racismo, não podemos julgar o que é racismo ou não é, e isso me lembrou muito uma confusão que determinado livro gerou nas redes sociais, onde uma autora branca não aceitou críticas de leitoras negras que se sentiram extremamente incomodadas com seu livro sobre o romance de uma escrava com o Senhor da fazenda.

O embasamento histórico da autora é incrível, pelos olhos de Dana conseguimos ver a diferença entra o sistema de escravidão nos Estados Unidos e no Brasil. Lá os Senhores de escravos estupravam as escravas constantemente na intenção de gerarem mais escravos ‘de graça’ assim não precisavam investir mais dinheiro para conseguir o trabalho nas fazendas. Assim os escravos acabavam criando uma comunidade fortalecida, laços de família que os ajudavam a suportar todas as humilhações que passavam, compartilhando os sofrimentos, medos, alegrias e principalmente a força. E é muito visível essa relação nos personagens do livro, Sarah, Carrie, Alice, Nigel... Todos eles possuem uma característica marcante sobre a época da escravidão, mas sem entrar em estereótipos a autora consegue mostrar essa união, e também mostra como tais papeis são muito mais complexos do que sempre imaginamos de fora.

"Não sabia que as pessoas podiam ser condicionadas com tanta facilidade a aceitar a escravidão."


Mas com certeza o ponto de mais destaque e discussão deste livro é Kevin, o marido branco de Dana. Mesmo com ele vivenciando o racismo diariamente com sua esposa – como sua irmã não aceitar que ele se case com uma negra – quando ele viaja com ela para o passado vemos como ‘o homem é fruto do meio’, como ele não consegue entender e sentir o racismo do mesmo modo de Dana, e com isso a autora mostra que mesmo que você seja um branco com boas intenções, nunca vai entender o racismo da mesma maneira que um negro. Ela mostra como é fácil para um branco se encaixar naquela época e se acostumar com todas as comodidades que ela trás para eles, tapar os olhos diante de tanta crueldade e ver só as partes boas daquela época.

Outro ponto de discussão envolvendo Kevin é o papel da esposa na época da escravidão e em muitos anos depois onde ‘marido’ e ‘mestre’ eram praticamente as mesmas coisas, já que a maioria das mulheres eram submissas aos maridos e não podiam fazer nada que ele não permitisse ou mesmo o questionar. Mesmo 40 anos depois da publicação do livro esse tema ainda continua muito atual, pois há milhares de mulheres em relacionamentos abusivos ainda hoje, sendo espancadas por ciúme, por não limpar a casa direito ou questionar o marido quando ele está bêbado.


Mesmo tendo uma temática tão dura, e mostrando cenas pesadas sem dó, a escrita da autora é completamente fluida, eu peguei o livro sem saber muita coisa sobre ele e quando vi já havia lido mais de 100 páginas, e quando fui dormir não conseguia parar de pensar na história e imaginar o que aconteceria nas páginas finais. Dana é uma mulher intensa, guerreira que prende o leitor na história e te faz questionar todos os pré-julgamentos que você já fez sobre o racismo.

A edição da Morro Branco está incrível também, mesmo a minha sendo a edição ‘econômica’ – padrão estrangeiro com capa sem orelhas – a revisão, as imagens dentro são lindas. E eles também tem uma edição luxo de capa dura (a qual eu desejo com todas as forças) que tem uma análise do livro – a qual eu consultei para fazer essa resenha – e questões de debate sobre a leitura. É um conteúdo incrível o extra, e se tiverem oportunidade aconselho vocês a adquirirem ela.

Por fim, mesmo Kindred não sendo um ‘documentário sobre o racismo’ ele é um livro forte e necessário, um livro que abre os olhos dos leitores, para mostrar que a escravidão, o racismo não é ficção. Eles existem. São reais, e ainda estão acontecendo diariamente ao nosso redor. Mesmo se este não for o tipo de livro que você está acostumado a ler, dê uma chance, essa é uma história que mesmo mostrando o passado nos ajuda a entender o presente, e que com certeza nos faz melhorar um pouquinho como ser humano ao final dessa leitura.



17 comentários:

  1. Oi Sabrina, eu tenho lido muitas resenhas deste livro. Gosto do tema "viagem no tempo", mas não curto muito o tema "escravidão", então, apesar de parecer uma leitura incrível, no momento, não estou preparada para ela.
    Tua resenha ficou ótima, muito completa e bem escrita, parabéns!
    Bjos
    Vivi
    http://duaslivreiras.blogspot.com.br/

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  2. Li poucos livros com essa temática e acho bem interessante esse poder de Dana em viajar no tempo, por assim dizer e imagino a dramática em torno disso, uma vez que ela é negra em um tempo racista e realmente a autora é uma mulher corajosa e inovadora, escolhendo o passado para fazer base para uma ficção cientifica. É um livro que gostaria de ler, ainda mais mostrando a cruel realidade que ainda se faz presente em muitos lugares.

    Abraços.
    https://cabinedeleitura0.blogspot.com.br/

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  3. Oi Sabrina! Que premissa incrível! Realmente ter uma personagem negra em ficção científica na época do lançado poderia mesmo ser considerado ousado e até mesmo hoje em dia, sinto uma ausência muito grande de representatividade negra em todos os gêneros literários. Enfim, é uma trama forte, a parte mais pesada é sempre difícil pra digerir, mas quero conferir.

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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  4. Olá, tudo bem?

    Uau, que premissa!
    E, realmente, a autora foi corajosa, mas é disso que precisamos, de livros que nos mostrem a realidade nua e crua, pra ver se o mundo para com o preconceito totalmente.

    Fiquei com a sensação de que o livro é pesado, como um todo, e não apenas pelo seu tema, mas por ser abordado de forma real, confesso que fiquei com vontade de ler.

    Beijo!

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  5. Oie!

    Em um primeiro momento eu não tinha sentindo interesse na obra, mas agora lendo sua resenha bateu certa curiosidade de saber como essa história irá se desenvolver e o que a autora nos mostra e ensina nela, com certeza entrará para a lista de desejados!

    Bjss

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  6. Escravidão é um tema que sempre mexeu comigo, fico admirada e assustada com a capacidade do ser humano em ser tão cruel e inventar desculpas para tais atrocidades.
    Fiquei sabendo do livro e fiquei mega curiosa pra saber de tudo, mas confesso que tenho receio, pois sei que vou ficar de ressaca e o livro vai ser bem intenso.
    Adorei a sua resenha, e por mais livros assim que nos façam questionar sempre.
    Beijos.

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  7. Olá!
    Essa história parece ser bem detalhista com essa viagem toda no tempo. Gostei de saber que a autora consegue nos prender na narrativa e ainda trazer um enredo polêmico com bons elementos para reflexão e assuntos importantes e uma personagem bem forte.
    Gostei de conferir suas impressões sobre essa trama.
    Beijos!

    Camila de Moraes

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  8. Só tenho ouvido e lido elogios para com este livro e confesso que quando li as primeiras resenhas, descartei a ideia de ler em função desta questão de viagem no tempo. Porem, depois de esmiuçar o tema do racismo, acho que vou ler em breve porque tenho certeza que a história irá agregar.
    Beijos

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  9. Oi, tudo bem?
    Eu acho que não vi ninguém que leu esse livro falando mal. Parece ser uma leitura intensa, que faz o leitor refletir e que discute de uma maneira interessante um assunto que precisa muito ser abordado. Apesar de não ser muito de ler ficção científica, acredito que esse livro irá me agradar mais tanto pela temática quanto pelo fato de que não é um livro que fica entrando em detalhes e com explicações sobre a parte de ficção.
    O meu único receio em ler é que acredito que seja uma leitura dolorosa em alguns momentos. Eu ando evitando um pouco leituras mais pesadas, então, não sei se estou muito no momento para ler. No entanto, adorei sua resenha e a dica já está anotada, pois acredito que esse seja um livro que vale muito a pena ler.
    Beijos!

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  10. Este comentário foi removido pelo autor.

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  11. Sinto pela sua resenha que o livro é extremamente importante em mostrar o quanto nunca entenderemos como o racismo afeta os negros, até mesmo nos dias de hoje. Acho que é uma ótima maneira de entender o passado - até mesmo brasileiro - e até mesmo o nosso presente e quem sabe futuro. Enfim, uma leitura clássica extremamente reflexiva de fato.

    Beijos
    http://ventoliterario.blogspot.com

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  12. Olá Sabrina, realmente nunca poderemos saber o que se passa na pele de quem sofre preconceito, só quem mesmo vivenciou isso. E infelizmente em pleno século 21 muita coisa não mudou. E cada vez mais a lista de pessoas independente de ser branca ou negra sofrem muito preconceito.

    Nunca li nada falando sobre a escravidão e esse livro me despertou muito interesse. Gosto muito dos livros que tocam na alma.

    Como sempre adorei a sua resenha.

    Beijos

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  13. Olá Sabrina,
    Tive a oportunidade de ler esse livro logo que ele foi lançado e não poderia ter e encantado mais com ele. Fiquei muito contente por você ter curtido e por você ter dito que ficou com essa sensação do que é ler e passar por algo, acho que você retratou o livro, nessa parte, de uma forma magnífica.
    Eu estou louca para reler esse livro.
    Beijos,
    https://www.umoceanodehistorias.com/

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  14. Olá Sabrina,
    adoro suas resenhas porque sempre que chego aqui me deparo com um livro que proporciona bem mais que entretenimento. Claro que entreter é importante, inclusive a maioria dos livros que leio, são livros que priorizam esta questão, mas além de distração, livro também é cultura e ensinamentos e é isto que costumo ver em seu blog e gosto muito disto, aqui consigo atualizar minha lista de livros que sei que me proporcionarão ensinamentos que posso levar para a vida. Parabéns pela resenha e pelo gosto literário.

    Abraços!
    Nosso Mundo Literário

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  15. Oie, tudo bom?
    Eu amei a resenha! Li esse livro e achei incrível a forma da autora escrever com tanta propriedade sobre a escravidão, e fiquei muito emocionada quando terminei a leitura. É simplesmente um dos livros mais arrebatadores que já vi.

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  16. Olá, tudo bem?
    Já tinha visto a capa deste livro mas sequer imaginava que o mesmo trazia o tema de escravidão como.fundo, senão já o teria comprado. Realmente a autora foi corajosa tanto pelo tempo, tema é estilos escolhidos para a publicação do livro, mas fico feliz que assim como.voce outras pessoas apreciaram a história. Dica anotada.

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  17. Ola nao conhecia o livro nem a autora a historia me pareceu ser bem bem rica em detalhes mais nao é muito o meu estilo de leitura mais para quem gosta vale a dica
    BLOG♥ Coisas da bueno

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