06 abril 2018

Resenha: O Homem de Lata - Sarah Winman

em 06 abril 2018

24 comentários

Em 1963, Ellis e Michael eram dois garotos de doze anos que se tornaram grandes amigos. Durante muito tempo, sempre foram apenas os dois, andando pelas ruas de Oxford, um ensinando ao outro coisas como nadar, descobrir autores e livros e a esquivar-se dos punhos de seus pais dominadores. Até que um dia algo muito maior que uma grande amizade cresce entre eles. Mas então, avançamos cerca de uma década nesta história e encontramos Ellis, agora casado com Annie, e Michael não está mais por perto. O que leva à pergunta: o que aconteceu nos anos que se seguiram? Esta é quase uma história de amor. Mas seria muito simples defini-la assim.

*Livro recebido em parceria com a editora* 

“Eu sabia que estava perdendo o controle do meu coração. Estava apaixonado. E era o homem mais feliz da terra.” O Mágico de Oz



Leio esse livro num momento bem reflexivo da minha vida. um livro que me fez pensar nas escolhas que fazemos e nos rumos que nossa vida toma de acordo com elas. O Homem de Lata vai contar a história de Ellis e seu amigo Michael. Vamos acompanhar suas memorias e como tudo tomou o rumo diferente dos planos dos dois.

Não existe nada de excepcional na rotina de Ellis, desde cedo obrigado pelo pai a trabalhar numa fábrica de carros, ele é o "martelinho de ouro", e sua vida é vazia agora, aos 45 anos, viúvo, passa as noites na fábrica e o resto do dia na companhia de uísque. O vazio que a perda da felicidade deixou para trás, faz com que sua melhor companhia sejam as memórias da esposa Annie e do amigo Michael.  

"Mas era minha humanidade que me levava a procurar, só isso. Que nos leva a todos. A simples necessidade de pertencer a algum lugar."

No passado amigos inseparáveis, Ellis e Michael sonhavam e faziam planos para uma vida longe de onde moravam, uma área industrial no subúrbio de Oxford. Vamos vendo as memorias da infância com a mãe de Ellis, Dora, uma mulher apagada pelo casamento com um homem insensível e abusivo, que encontra alegria nos meninos e na sua replica de Os Girassóis de Van Gogh, ela se enxerga na delicadeza do quadro e tenta passar os meninos toda ternura que consegue. E como ela teve influência em suas vidas.

Michael definitivamente foi o personagem que amei, enquanto que Ellis é mais calado, introspectivo, um sonhador. Michael é alegria, eferverscência, o que traz a luz as coisas. .Engraçado como a autora me fez sentir quando lia as memorias de Ellis e Michael, sentia que com Ellis tudo era muito cinza, nublado enquanto as de Michael, apesar de tudo era como se o sol estivesse o tempo todo com ele, sob sua ótica as coisas são mais leves, mesmo quando tudo é tão pesado. Apesar de pouco se falar sobre Annie, a esposa de Ellis, você sentia que ela era generosa, alegre e amável. No pouco que se mostrou sobre ela bastou pouco para sentir isso. 

"Ellis se lembrava de ter pensado que jamais conheceria outra pessoa como ele, e esse conhecimento, ele sabia, era amor."


O livro aborda de maneira sutil o homossexualismo, a autora não fez alarde e grandes questionamentos e tornou uma história que podia ser pesado em algo mais leve, mesmo que melancólica.  Foi uma leitura rápida, além de ser curtinho, ele tem 156, você se envolve nas memorias e reflexões de Ellis na primeira parte do livro e depois, na segunda parte com as memorias de Michael. 

Minha dificuldade maior na leitura é que  a história não segue de forma linear, ele vai e volta nas memórias do passado e tive que ficar atenta pois não existe uma separação, ele está no presente e do nada se você não estiver ligado pode se perder um pouco, mas passado algumas páginas eu consegui me situar e me acostumar com a proposta da autora.
Não posso deixar de elogiar a edição do livro. A capa, a espessura das páginas, a diagramação, foi feita com muito cuidado e tornou o livro um produto final lindo e faz você sentir a conexão com a história. A editora Faro caprichou e não decepcionou. Nota 10.

"E me pergunto qual poderá ser o som de um coração partido. E acho que deve ser baixo, quase imperceptível, sem nenhuma dramaticidade. Como o som de uma andorinha esgotada caindo suavemente na terra."

Um livro que fala de escolhas, amor e ternura, as verdadeiras amizades e as inseguranças tão típicas da juventude. O medo, o preconceito velado, os tantos "se" que mudam os rumos de uma história. As palavras não ditas. O que se deixou para trás. O que ignoramos. Que me fez perguntar quando amores perdidos por incertezas e medos, criados pelo preconceito e falta de aceitação, não foram perdidos, desperdiçados, quantos  corações perdidos ficam pelo caminho por conta dos ''se". E se eu tivesse coragem? E se eu não tivesse pego aquele trem? O quão frágil nos somos. Mais fácil explicar esse livro com sentimentos.


24 comentários:

  1. Oi, Fernanda.
    Adoro esses livros que trazem propostas diferentes, a narrativa foge da linear.
    Já vi algumas resenhas de O Homem de Lata e estava curiosa acerca do trama, sua resenha só confirmou ainda mais. Sou apaixonada por histórias que começam na amizade e evoluem para possíveis relacionamentos. Gosto, em especial, quando a homossexualidade é tratada como o que verdadeiramente é, uma coisa simples.
    Parabéns pela resenha!

    Beijos,
    Barb ❤️
    http://www.segredosentreamigas.com.br

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    1. Barbara foi um dos livros mais sensíveis que li nos últimos tempos, sem presa de explicar ou de deixar algo concluído.

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  2. Amei, amei e amei!
    Esse é aquele tipo de leitura que te faz rir, chorar, sentir, refletir.. Trazendo um misto de sentimentos e assuntos que vai desde a amizade, abandono, amor, sexualidade, gênero, HIV, aceitação, entre outros, Sarah Winman te conduz rumo aquela obra que te fará sentir cada momento com os personagens e arrancará lágrimas a todo instante.

    Um livro sobre sentimentos indescritíveis!

    Beijos.

    www.alempaginas.com

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    1. Isso mesmo, um livro maravilhoso em tempos de aceitação.

      bjs

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  3. Olá, ótima a sua resenha. Um homem de lata é uma leitura que quero fazer, me parece ser uma história sensível, que nos toca justamente pela sua sutileza, gosto de tramas assim.

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    1. Oi Marijleite esse livro é realmente simples e sensível.

      bjks

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  4. Livros reflexivos são sempre muito bem vindos, ainda mais quando vem com uma temática tão forte abordar de maneira tão sutil como mencionou. Notei que essa forma não linear de narrar os fatos, foi problema para bastante gente, mas ainda sim quero ler.

    Abraços.
    https://cabinedeleitura0.blogspot.com.br/

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    1. Foi o que mais me encantou nessa leitura, a sutileza ao abordar temas tão conflitantes e tabus para a época que ele é ambientado.

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  5. Oi, Fernanda! Lembro de já ter lido uma resenha desse livro e simplesmente ter adorado! A sua não foi diferente. É um livro mais reflexivo e, pelo que vi, muito envolvente.
    Bjos
    Lucy - Por essas páginas

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    1. Oi Lucy! Esse livro me deixou pensando durante horas depois de ler, então a leitura vale a pena só por isso.

      bjs

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  6. Oie!
    Nossa acredito que eu não conhecia esse livro e tenho que dizer que a sua resenha me tocou de uma maneira muito boa. Acho incrível livros que nos tocam e que ao mesmo tempo são sensíveis dessa forma.
    Dica mais que anotada

    Beijos
    Mayara.

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    1. Anota essa dica mesmo e depois diz aqui se vc gostou.

      bjs

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  7. Oi.
    Gosto desses livros que não trazem cronologia linear, acho que conseguem contar as histórias de uma forma mais completa. Mas realmente demora um pouco para acostumar com cada livro e normalmente são histórias mais melancólicas.
    É um tipo de livro de gosto de ler, mas tenho que estar no clima.
    Adorei a dica.
    Beijos.

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    1. Oi Barbara! Foi um pouco confuso a questão da cronologia, mas logo me ambientei com a proposta da autora. Falei ter insistido na leitura

      bjs

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  8. Oi, tudo bem?
    Quando esse livro foi lançado, eu não fiquei muito interessada, porque pensei que era uma releitura de O mágico de Oz. Depois, fui lendo mais sobre ele e percebi que era mais do que eu imaginava.
    Gostei dos temas abordados e parece ser uma leitura muito sensível. Porém, acho que esse vai e vem na trama iria me incomodar. Livros que ficam indo e voltando no passado me irritam por causa da quebra de ritmo. Então, acabo ficando com o pé atrás de ler.
    De qualquer forma, adorei a resenha!
    Beijos!

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    1. Olá Maria Luíza, realmente é um pouco confuso as mudanças de tempo no livro, e o começo é um pouco parado vc pensa que dali não vai acontecer nada, ainda bem que perseverei rsrsrs a visão pela perceptiva de outro personagem deu cor ao livro.

      bjs

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  9. Olá Fernanda, tudo bem?
    Eu já tive a oportunidade de ler esse livro e fiquei completamente encantada com a história e os personagens, mas eu tive o mesmo problema que você com relação a linearidade da história e demorei a concluir a leitura, mas me encantei ao final.
    Fiquei feliz que você tenha apreciado esse livro e que o momento tenha sido oportuno.
    Beijos

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    1. Estamos em sintonia Bruna, sofremos do mesmo mal com esse livro rsrsrs mas valeu né?

      bjs

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  10. Oi, Fernanda!
    Esse livro me chamou atenção desde que vi algumas resenhas bem positivas. A premissa é bem diferente do que costumo ler, mas os personagens chamaram minha atenção. Fiquei um pouco receosa por não ser uma narrativa linear, acho a leitura mais sofrida quando o narrador volta muito no passado, mesmo assim vou ler.
    Beijos,
    Rafa -Fascinada por Histórias

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    1. Oi Rafaella, foi pra mim também uma leitura um pouco diferente do meu costume, mas adorei sair um pouco da casinha e não me arrependi.
      bjs

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  11. Oi Fernanda, como está?
    Sempre tinha achado a premissa desse livro muito diferente, mas não achei que a história pudesse ser tão intensa! É uma mistura de sentimentos e voltas no tempo sobre decisões que tomamos e deixamos de tomar e o quanto isso pode interferir na nossa vida. Simplesmente adorei! Excelente texto.
    Abraços e beijos da Lady Trotsky...
    http://www.galaxiadeideias.com/
    http://osvampirosportenhos.blogspot.com

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    1. Obrigada Renata, foi o que mais me tocou nessa leitura, os tantos "se".

      bjs

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  12. Eu gosto muito quando um livro voltado para a juventude traz estes temas no enredo: amizade, escolhas, responsabilidade. Desde o lançamento tenho vontade de fazer esta leitura e depois da sua resenha empolgada, fiquei mais animada ainda.
    Beijos

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    1. Olá Ivi,obrigada! Que bom que minha resenha surtiu um efeito mais que positivo, espero que vc goste do livro como eu, bjs

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